O Professor, Mundo de Beakman e Nerdologia: os processos criativos na escola


É de fato muito intrigante a capacidade das crianças para fazer perguntas aterrorizantes a seus pais ou a qualquer adulto que passe desavisadamente perto delas. Muitas das indagações são golpes indefensáveis e revelam quão pouco sabemos sobre a intensidade dos processos criativos que elas vivenciam. Mesmo sem estudar as modernas teorias da psicologia educacional ou mesmo da psicologia infantil os pais devem procurar compreender melhor o papel do “dilema da verdade” pois, além da crença no Papai Noel, estão em jogo muitas das concepções nas quais elas se agarrarão pelo resto da vida. Além da família (e dos desavisados), crianças e jovens atuam muito fortemente na tentativa de dar um nó na cabeça de seus professores que, por sua vez, criam diversas estratégias para se relacionar com suas interrogações. Porém, devemos nos perguntar qual o verdadeiro estatuto do processo criativo na escola? Seria ele tratado como ponto de chegada ou de partida nas propostas pedagógicas? O professor está preparado para permitir a criatividade? São essas as nossas “aterrorizantes” perguntas para você que nos lê e sobre as quais trataremos agora.

O Professor e Mundo de Beakman

beakman

É inegável o papel importantíssimo que a TV Cultura teve na formação cultural e acadêmica das crianças e adolescente nos anos 1990. Sem que percebêssemos as tardes se transformavam em verdadeiras aulas de cidadania, ciências e cultura. A TV da Fundação Padre Anchieta investia muito fortemente na produção de séries criativas, inovadoras e que respeitavam os processos formativos pelos quais crianças e adolescentes passavam. Programas como X-Tudo, Glub Glub e Ratimbum provocavam de forma muito responsável a imaginação de seu público e o conduzia a reflexão sobre temas como convívio familiar, consciência ambiental, higiene entre outros. Mas os programas O Professor, produção própria da Tv Cultura, e o Mundo de Beakman (Beakman’s World), uma série americana, se destacavam na abordagem científica que faziam do cotidiano. Em O Professor, Sadao Mori, um japinha simpático e professor de Física, recebia em sua casa alguns jovens (entre eles o Caio Blat) e aproveitava algumas situações cotidianas para demonstrar experimentos e, com isso, o valor do estudo de ciências. No entanto, em uma produção muito mais “MTV”, o Mundo de Beakman trazia elementos “alucinógenos” à sua abordagem, respondendo a questionamentos de seus espectadores através de cartas enviadas ao programa (apesar de no Brasil os nomes dos autores das cartas terem sido recriados de modo fictício). Amos os programas permitiam que fatos cotidianos por que passam crianças e adolescentes são extremamente férteis para as indagações de cunho científico. Lembro-me, em uma de suas explicações, Beakman ensinar como podemos fazer vidro falso em casa, usando açúcar e outros recursos domésticos. O Professor ainda pode ser acompanhado pelo Youtube e o Mundo de Beakman tem todas as suas temporadas disponíveis no Netflix.

O Nerdologia

Recentemente venho assistindo as produções do canal Nerdologia, uma série que saiu das peripécias do blog Jovem Nerd e que, depois de um ano, ganha destaque cada vez maior entre os amantes da cultura geek/nerd. Os vídeos revelam, muito progidiosamente, a capacidade de combinar o argumento científico ao universo imaginativo dos quadrinhos, cinema, literatura, televisão e da indústria cultural de forma geral. Tendo como mote as características do nerd clássico, ou seja, para quem toda pergunta merece uma resposta plausível, os desenvolvedores da série aplicam cuidadosamente conceitos científicos em argumentações contundentes e bem humoradas, buscando aproveitar ao máximo a curiosidade e criatividade infantil que nos acompanha ao longo da vida. O pesquisador e doutor em Biologia, Atila Iamarino, é quem assina o conteúdo, com temas que vão de “Como matar o Wolverine?“, passam por “Ser invisível é possível?” e chegam a “Construindo uma Estrela da Morte“. Um de meus preferidos é sobre a teoria do caos e o efeito borboleta:

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Em torno dessa abordagem provocante existe uma concepção de aprendizagem que aproveita todas as brechas da nossa realidade, reais ou imaginárias, para transformar dúvida em conhecimento. O mesmo princípio seguiu René Descartes e sem isso ele não tinha passado de sua primeira meditação. Como no O Professor e no Mundo de Beakman a ciência a forma científica de abordagem do real é o ponto central, mas em Nerdologia a ficção, o imaginário, a mitologia, reune as condições motivacionais para a elaboração das dúvidas. A ficção como ponto de parte não elimina a consistência das teorias, hipóteses, cálculos e outros componentes do método científico presentes nas obras literárias ou nos filmes, o que torna mais intrigante a busca pela comprovação científica de suas verdades ou mentiras.

Os Processos Criativos na Escola

Sabemos que a escola deve preparar crianças e adolescentes para que resolvam, de forma autônoma, cooperada e responsável seus próprios problemas no decorrer da vida, mas também que, para isso, ela deve lançar mão dos saberes produzidos socialmente. Toda escola tem uma proposta curricular que aponta para conteúdos, informações, conceitos, competências e habilidades a serem desenvolvidos, que ganham vida, basicamente, a partir de seus métodos, conjunto de atividades intrínsecas às aulas e projetos. Para compreender melhor qual o lugar dos processos criativos na escola precisamos identificar como esses elementos curriculares: conteúdos, tempos e espaços se articulam para gerar curiosidade em torno dos problemas abordados e o que é necessário para que o estudante caminhe com segurança rumo à solidificação de seus saberes.

a) Os Conteúdos Curriculares

Da infância até a adolescência o estudante tem a missão de absorver informações, apreender conceitos, adquirir competências e habilidades condensadas, principalmente, nos manuais e livros didáticos. O que não está nos livros está na cabeça dos professores, formada pelo seu currículo acadêmico e pelo seu desenvolvimento profissional como educador ou até mesmo em outras profissões. Mas como os conteúdos escolares se articulam com a criatividade dos estudantes, sem entrarmos ainda no mérito da questão metodológica? Na medida em que os conteúdos escolares são construções validadas socialmente, e que sua apreensão é o objeto, por excelência, da avaliação do progresso da educação nacional, existe muito pouco espaço para a criação de conteúdo na escola. Pensemos em nossa estrutura disciplinar básica da maioria das escolas, contendo no mínimo 13 disciplinas, e o quanto isso torna caro o tempo curricular. Mal entra nessas disciplinas a literatura nacional, o que dizer então de Oscar Wilde, Alexandre Dumas ou Miguel de Cervantes? Na Matemática e Física não se encontra Animação 3D nem Robótica. Na Sociologia e Geografia nada de Redes Sociais ou Georreferenciamento. Na escola, parece-nos, o objetivo é compreender o mundo apenas em essência e se der tempo, na prática. Esse caráter essencial do conteúdo torna quase inviável sua flexibilização e, principalmente, que os estudantes participem desse processo.

Os conteúdos curriculares de nossas escolas tem, portanto, oferecido lugar periférico aos processos criativos, subscrevendo-os aos projetos que buscam tempo nos contraturnos, intervalos e sábados letivos. Tais projetos assumem inegável importância nesse contexto, inclusive, permitindo que os estudantes ressignifiquem os conteúdos escolares, mas seu desenvolvimento é conquistado com muito sacrifício de professores e alunos.

b) As Metodologias

Ponto alto da criatividade na escola, as metodologias e estratégias revelam boa parte das oportunidades dadas aos estudantes para que se envolvam e conduzam suas aprendizagens. São exibição de filmes, rodas de leituras, debates, pesquisas, interpretação de letras de música, experiências, aulas de campo e uma sorte de outras atividades que tornam a aula mais significativa com a participação dos estudantes. O ponto alto desse processo é permitir o “grande encontro” entre o que o alunos traz consigo com aquilo que ele deve aprender em cada área do conhecimento ou disciplina. Nossos exemplos, O Professor, O Mundo de Beakman e Nerdologia, apresentam formas diferentes de desepertar a curiosidade, mas todos eles ressaltam a importância de resguardar a autoria do ato de duvidar àquele que aprende. O desenvolvimento dos processos criativos na escola devem, desse modo, considerar a autenticidade da dúvida estudantil, começo de todo movimento de interesse pelos temas curriculares. Desse modo podemos nos perguntar: por onde começam nossas aulas? O estudante está no princípio e no centro dos problemas abordados? Estas são perguntas que nos fazem refletir sobre a esturura dos planos de aula e modo como organizamos tempos, espaços e recursos. Conhecer o mundo é percorrer por suas estradas e quem tem que se perder ou se encontrar nelas é o aluno e não o professor.

São essas, portanto, algumas reflexões iniciais sobre o modo como os processos criativos conquistam tempo e espaço nas escolas, que revelam a necessidade de avançarmos numa concepção de aprendizagem centrada ainda mais no sujeito aluno que, apesar dos discursos pedagógicos contemporâneo, ainda mantem os traços mais vivos da postura enciclopédica.