O fim da era Atari e a indústria de games


No início dos anos 1990 ganhei o meu primeiro vídeo-game, um Supergame CCE compatível com o Atari. Nessa época os vídeo-games ainda eram o único divertimento eletrônico, o que não pode ser comparado a ganhar o primeiro computador, o primeiro celular ou o primeiro vídeo-game atualmente. Isso mudava completamente a sua vida, o modo como você se relacionava com os colegas e, claro, a maneira como você passava horas na frente da tv. A CCE, como muitas outras empresas, quase uma década depois da Atari levar para o buraco a indústria dos vídeo-games nos EUA, ainda vendia milhares de consoles em países como o Brasil, fazendo a alegria da meninada.

cce_supergame-vg-3000_1

Atari: Game Over

Mas eu não vim contar a minha história com os vídeo-games e sim recomendar o documentário Atari: Game Over, disponível na Netflix, que conta a incrível história do fim da companhia mais lucrativa da história dos vídeo-games e o caso (e lenda) emblemático do enterro de milhões de cartuchos do jogo E.T. The Extraterrestrial em 1983. O filme se concentra na saga de Joe Lewandowski, um antigo funcionário do aterro sanitário de Alamogordo, Novo México-EUA, onde poderiam ter sido enterradas toneladas de cartuchos e demais equipamentos da empresa. Apesar de seus estudos terem começado bem antes, a escavação foi liberada pelas autoridades locais apenas em 2012, com o patrocínio da Microsoft, que tinha a intenção de lançar o documentário para seus consoles Xbox (veja notícia da BBC). Paralelamente ao desenterro o documentário resgata a memória do ano fatídico para o criador do jogo E.T., Howard Scott Warshaw, para a Atari e para toda a indústria americana de vídeo-games. A participação de vários funcionários da empresa, de colecionadores e de fãs da lenda oferece uma boa visão de todo o processo que levam Joe, Warshaw e dezenas de curiosos ao aterro sanitário da pequena cidade.

13053934

O “Caso”, a “Lenda” e a indústria dos vídeo-games

O caso refere-se à quebra da maior empresa de vídeo-games que já existiu. A lenda, no entanto, é apenas uma forma de retirar do modo de produção dos vídeo-games a culpa pela derrocada. Wharshaw tinha apenas 5 semanas para produzir o game e o fez, mas a Atari teve anos de lucros milionários às custas de jogos desenvolvidos por ele mesmo, como o sucesso Yar’s Revenge e Raiders of the Lost Ark. Algo dessa história deve ser usado para refletirmos sobre o atual estágio a que chegamos com a produção contemporânea de games. O sucesso dos jogos para celular, dos indie games como Minecraft e das novas formas de se divertir tocando instrumentos ou dançando, também são sinais de mudança importantes para o mercado que, atualmente, compete firmemente com as séries e o cinema. Para se ter uma ideia, em 1997, o game Final Fantasy VII já havia custado US$ 45 milhões em desenvolvimento e US$ 100 milhões de dólares em marketing, o que daria, em reais e atualmente, um custo total de  R$ 654 milhões. Destiny e GTA V lideram o ranking de games com custos de produção e de marketing mais elevados da história com, respectivamente, com R$ 1,5 bilhão e R$ 845 milhões. É certo que a sustentabilidade destes projetos é totalmente diferente mas é importante salientar que, como qualquer manifestação cultural, o nosso fascínio em torno dos vídeo-games se modificará, exigindo uma nova configuração desses investimentos. Algo sobre isso é muito bem explorado no documentário Indie Game: The Movie, também disponível na Netflix, que revela os bastidores da produção de jogos alternativos para consoles de ponta como XBox e Playstation. A sensibilidade, as transformações sócio-culturais e as mudanças na economia do século XXI são os elementos centrais de uma trama que envolve o gigantesco mercado da indústria cultural nos EUA e no mundo.

9202017

Mais informações sobre o documentário:
GameHall

Aspectos centrais da Educação Aberta


O desenvolvimento das tecnologias da informação e comunicação tem impactado todas as áreas da sociedade e, inevitavelmente, provocado novas e importantes reflexões acerca da produção e de reprodução das relações sociais. Neste cenário ganham força as mudanças na maneira como as pessoas acessam a informação, como produzem e compartilham o conhecimento, abrindo caminho para a ampliação das tensões e dilemas no contexto educacional. Essas mudanças relacionam-se diretamente com os questionamentos sobre os formatos de aprendizagem desenvolvidas pelas instituições escolares. Neste texto, reúno alguns aspectos relacionados ao movimento pela Educação Aberta, pelos quais podemos compreender as principais características que consolidam novos “arranjos” percebidos na educação.

Educação Aberta e o direito à educação

A Educação Aberta se refere, de modo geral, aos movimentos em defesa do direito à educação de qualidade para todos e se expressa através de diversas iniciativas que combinam novas formas de suporte, instrução, estímulo, interação, mediação e avaliação de aprendizagens. Apesar de podermos nos remeter às várias teorias educacionais criadas no século XX, que propuseram uma reconfiguração da relações educativas dentro e para além da escola, atualmente, o intenso uso das tecnologias da informação e comunicação está sendo decisivo para a transformação dessas relações. Em certo sentido, as experiências de educação aberta refletem uma crítica às inúmeras restrições de acesso e de desenvolvimento dos sujeitos no contexto educacional predominante nos modelos de escola e de universidade atuais. A educação básica no Brasil, por exemplo, sofre com o modelo de relacionamento intraescolar entre estudantes, professores e gestores, que não favorecem o engajamento estudantil. O ensino superior brasileiro de qualidade tem filtros extremamente elitistas para o acesso às suas vagas. Mas ambos também enfrentam a grande dificuldade de acesso e reprodução dos recursos educacionais elementares como livros e demais ferramentas de aprendizagem. Especialmente focados neste último desafio educadores e instituições de diversos países assinaram a “Declaração sobre Educação Aberta da Cidade do Cabo” (http://www.capetowndeclaration.org/):

“Esse movimento emergente de educação combina a tradição de partilha de boas idéias com colegas educadores e da cultura da Internet, marcada pela colaboração e interatividade. Esta metodologia de educação é construída sobre a crença de que todos devem ter a liberdade de usar, personalizar, melhorar e redistribuir os recursos educacionais, sem restrições. Educadores, estudantes e outras pessoas que partilham esta crença estão unindo-se em um esforço mundial para tornar a educação mais acessível e mais eficaz.”

O “aberto” na Educação Aberta

As relações educativas estão circunscritas na mesma dinâmica das demais relações sociais, políticas e econômicas que, claramente, sofrem os efeitos das novas formas de organização da sociedade, proporcionada pelos avanços dos meios tecnológicos de disseminação da informação e pela ampliação das possibilidades de vínculos comunicativos. Essas formas de organização utilizam, principalmente, a participação autônoma e colaborativa como elementos centrais do sucesso das relações que as mantém. Ao conjunto de condições que garantem a autonomia e colaboração dos sujeitos em quaisquer processos dá-se, comumente, o nome de “Aberto”. O mesmo termo está presente em outros movimentos como dos de “código aberto” (open source), “ciência aberta” (open science) e “dados abertos” (open data) e, todos eles mantém relação entre si na busca pelas livres condições de desenvolvimento dos sujeitos na sua área. A “abertura” significa, de modo geral, o acesso aos elementos básicos constituitvos dos processos e objetos em jogo nessas relações. No “código aberto” o acesso irrestrito aos softwares e aos seus códigos-fonte define a liberdade de usuários e programadores. Na “ciência aberta” o acesso irrestrito aos modelos, metodologias e resultados de experimentos científicos define as possibilidades de atuação dos pesquisadores. E mesmo ocorre com os “dados abertos” onde o acesso integral aos dados em seus formatos brutos define o modo como os governos e organizações civis podem atuar pela melhoria da sociedade. O “aberto” na educação caracteriza-se, essencialmente, pelo acesso irrestrito aos recursos e às experiências educativas em formatos adequados às condições de uso, tempo, espaço e, claro, aos aspectos pessoais de cada aprendiz.

Autonomia e Colaboração na Aprendizagem

Podemos identificar muitos elementos comuns nas ações de promoção da educação aberta, mas o principal é, sem dúvida, a promoção da autonomia de aprendizagem dos educandos. As propostas e os recursos são desenvolvidos considerando a participação ativa dos aprendizes. Aspectos como o tempo, a sequência e os conteúdos de aprendizagem são planejados para que coincidam com os anseios e as possibilidades dos sujeitos. Nesse cenário, predominam iniciativas como o OpenCurseWare (OCW), modelo criado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts-MIT, e os Massive Open Online Courses (MOOC), modelos que possuem o Coursera como um dos maiores representantes. Os OCW foram criados em 2002 pelo MIT como forma de disponibilizar todo o conteúdo, materiais e atividades desenvolvidos oficialmente em seus cursos de modo público para que sirvam de material de estudos para a sociedade em geral. Os MOOC são cursos online realizados em larga escala cujos envolvidos tem acesso aos materiais e experimentam dinâmicas diversificadas de aprendizagem. Uma iniciativa diferente e ousada também foi desenvolvida pela P2P University como uma forma de incentivar e democratizar a produção de cursos online, garantido a expansão das experiências educativas através da colaboração.

Os REA e a cultura da produção colaborativa

A manutenção da Educação Aberta depende da sustentabilidade dos sujeitos nos processos desenvolvidos. Uma das formas de garantir a continuidade do “aberto” nas propostas educativas e nos recursos produzidos é a definição clara das possibilidades de acesso ao modo como foram eles foram construídos, aos componentes básicos de que são formados para que, de forma geral, sirvam de matrizes para novas produções. Por isso a Educação Aberta se beneficia diretamente das novas formas de licenciamento de conteúdo, tendo como referência os Creative Coommons presentes como parte da fundamentação legal dos Recursos Educacionais Abertos (REA). Os Creative Commons são as formas de permitir que os demais educadores e educandos terão as reais condições para usar, reusar, remixar e reutilizar os materiais de aprendizagem em contextos diversoss. Os REA, portanto, são definidos a partir de um conjunto de características que cada produção e o licenciamento devem possuir, de modo que não interrompam o desenvolvimento contínuo da educação. Quando tratamos de materiais como softwares, por exemplo, é importante que se garanta o acesso ao seu código-fonte. Quanto lidamos com livros é importante que sejam garantidas as oportunidades de reprodução gráfica. Ao tratarmos de vídeos ou áudios entram em cena as condições para que sejam reproduzidos pela maioria dos players. Os autores é que determinam que formas de tratamento cada produção pode possuir, a partir das classificações a seguir (na Wikipedia):

  • Atribuição (BY): Os licenciados têm o direito de copiar, distribuir, exibir e executar a obra e fazer trabalhos derivados dela, conquanto que dêem créditos devidos ao autor ou licenciador, na maneira especificada por estes.

  • Uso Não comercial (NC): Os licenciados podem copiar, distribuir, exibir e executar a obra e fazer trabalhos derivados dela, desde que sejam para fins não-comerciais.

  • Não a obras derivadas (ND): Os licenciados podem copiar, distribuir, exibir e executar apenas cópias exatas da obra, não podendo criar derivações da mesma.

  • Compartilhamento pela mesma licença (SA): Os licenciados devem distribuir obras derivadas somente sob uma licença idêntica à que governa a obra original.

São por essas e outras características que o movimento de educação aberta torna-se cada vez mais relevante para auxiliar na modelagem de uma educação para as reais necessidades dos sujeitos e da sociedade de uma forma geral, valorizando as capacidades, a autonomia e as oportunidades de colaboração.