Educação em Tabletes

20 de Agosto de 2011 em Educação e Tecnologia

Uma escola de Fortaleza exibiu esta semana um anúncio publicitário que dizia “Tablet substitui livros!”, e criou uma polêmica que se distribuiu entre as redes sociais e até os meios de comunicação tidos como oficiais. Espalhado por toda a cidade o outdoor, reproduzido abaixo, sinaliza mais uma das faces da relação entre educação e tecnologia. Mas ele vai além, levanta uma dúvida sobre uma das mais fortes representações culturais de nossa civilização: o livro.

Claramente em resposta a uma outra instituição de ensino cearense, que lançou uma peça publicitária simplesmente para dizer que estava adquirindo seus tablets, a empresa de comunicação que nos deixou subentender o fim da utilização dos livros tentou se explicar dizendo a um jornal local:

“O outdoor é uma mídia complementar da campanha. Lá, temos uma limitação de palavras, pois alguns publicitários colocam que um outdoor deve ter no máximo oito palavras. Isso torna difícil uma comunicação clara”.

Parece-me ridícula esta situação: um publicitário sacrificar o entendimento de sua ideia afim de cumprir uma regra feita por“alguns publicitários”. Segue ele dizendo:

“o livro didático será o mesmo, mas o aluno fará sua leitura no tablet. Livros nunca serão substituídos; poderemos ter alterações na forma de apresentar o seu conteúdo”.

Como assim o “mesmo”? Se estivéssemos falando de livros do filósofo grego Platão, onde o seu texto independe do suporte, eu diria: é o mesmo pois fala a mesma coisa. Não estou com o pessoal das traças que adoram papel, e nem com o grupo que adora passar o dedo na tela. No entanto o que está em pauta são os livros nomeadamente “didáticos” cuja organização do conteúdo textual e gráfico é bem limitada pela natureza própria do livro, sem contar o tamanho e peso de alguns livros (como os de Biologia) que chegam a ter 600 páginas. Chame-os de qualquer coisa, mas este tipo de livro transportado para o meio digital ganha outro sentido e já poderia ser chamado de “software” e seus recursos estarem integrados à Web. E por isso mesmo pode se dizer que o livro didático será sim substituído plenamente por recursos como os tablets. Porém, aos autores desta campanha é preciso mais sinceridade pelo menos, afirmando por exemplo: “sim, esta escola irá substituir seus livros “didáticos” por tablets, como está escrito bem claro no outdoor. Vocês não aprenderam a ler não?” Poderiam fazer isso ao invés de ficar arrumando desculpas para sair moralmente bem na polêmica.

A contracapa de um tablet na escola

As escolas estão adquirindo e usando tablets como se fossem grandes avanços na área da tecnologia educação. Esses recursos, no entanto, ainda não provocam qualquer modificação nas velhas estruturas metodológias, e refletem muito mais uma falta de inspiração destas instituições ao criar o marketing de seus serviços educacionais. Elas tentam pegar carona no “market share” de grandes empresas da área de informática e esquecem que ampliar a experiência informatizada na educação tem consequências que devem ser muito bem analisadas. Isso implica renovar a discussão sobre o papel dos recursos digitais na escola, mesmo que apenas se assemelhe apenas a uma mudança de suporte. Tablets podem representar uma coisa para o mercado de informática e algo bem diferente para a educação. Incorporá-lo como uma nova ferramenta, aliada da educação como o computador, o televisor ou projetor é muito importante. Mas isso é bem diferente de estampá-lo em campanhas publicitárias como um objeto de consumo adquirido recentemente por uma empresa. Soa até infantil. Estas instituições esquecem que seus discursos e comportamentos são uma referência não só para seus alunos, mas para toda uma sociedade.

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