Espaço insuficiente em disco

30 de Novembro de 2011 em Pensando Bits

Embriagados de tecnologia por todos os lados somos tomados por novas expressões que passam a se incorporar definitivamente em nosso dia-a-dia. Tenho até certeza de que você já se deparou com a frase “espaço insuficiente em disco” ou com uma de suas muitas variações. Esta é uma das situações mais inconvenientes pelas quais podemos passar no trato com a informática, mas é símbolo de uma frustração inevitável de nossa sociedade: a falta de espaço. Em casa falta espaço, na cidade falta espaço e, claro, até no meu cérebro também parece faltar espaço. Mas afinal, nesta era digital, o que significa faltar espaço? Trataremos a seguir desta e de algumas outras questões que envolvem os novos mitos desta era tecnológica.

Mas que espaço é esse?

Para medir o espaço físico sempre usamos os corpos como referência. Tanto aqueles que o limitam como aqueles que o preenchem. Na medição de uma sala, por exemplo, devemos estar preocupados com as paredes e com aquilo que vamos colocar entre elas. De que adianta saber a distância entre as paredes se não sabemos ainda o que vai ser colocado na sala. Dependendo do tamanho dos corpos que o ocupam, pode faltar ou sobrar espaço, pois o espaço é como um recipiente.

No mundo das tecnologias digitais não podemos falar de corpos da mesma maneira que falamos de um sofá, pois sua matéria-prima é a informação. Para medir nossa capacidade de guardar informações utilizamos os bits que, na informática, são as unidades mais básicas de medida. Nos bits armazenamos informações bem simples, eles são preenchidos apenas de duas formas: ou com 0 ou com 1; ligado ou desligado; aceso ou apagado; sim ou não; cheio ou vazio. Não importa como chamamos, espaço, nesse sentido, é a nossa capacidade de armazenar duas possibilidades. Agrupando os bits de 8 em 8 temos os chamados bytes, que já nos permitem armazenar um conjunto maior de possibilidades. Quanto mais combinações pudermos fazer, no mundo da informática, mais informações poderemos registrar, portanto mais espaço teremos.

No entanto, essa concepção formal de espaço na informática ainda possui o mesmo princípio observado em sua concepção geral: espaço faltando ou sobrando, depende do que nós queremos colocar nele.

Dando forma ao espaço

Se pensarmos bem, toda sala vazia está cheia de ar. O espaço surge a partir da constatação de seu tipo de conteúdo, do modo como o utilizamos. Da mesma forma que podemos tirar o ar e colocar o sofá na sala, podemos tirar o 0 e colocar o 1 no disco rígido, trocando uma informação por outra. O espaço, neste sentido, pode ser definido pela utilização que fazemos dele. Por isso é tão importante organizar o espaço, de forma que possamos encontrar os lugares em que se pode colocar mais coisas. Em informática, a primeira utilização do espaço é aquela que o deixa perfeito para receber nossas informações. Chamamos este processo de formatação.

A formatação é a maneira pela qual organizamos o espaço, ou seja, damos forma a ele. É como se tivéssemos que garantir o controle sobre a sala, dominá-la, saber onde cada coisa vai ficar e estabelecer um padrão. A formatação prepara as trocas. “Nada se cria, tudo se transforma” já nos dizia Lavoisier, mas é preciso estabelecer como estas trocas vão ocorrer. Na medida em que vamos fazendo substituições de informação inúteis por úteis, preenchemos nossos dispositivos com a aquilo que queremos guardar, ou seja, registramos o que para nós é importante. No entanto, devido ao volume de informações que são armazenadas, por exemplo, em um simples pendrive as informações sobre o preenchimento de cada setor do dispositivo vão sendo armazenadas. Quando precisamos apagar arquivos, e mesmo formatar o disco, apenas marcamos nesta tabela de registros quais setores do disco estão disponíveis para terem suas informações substituídas. Por essa razão é possível recuperar arquivos apagados, mesmo em discos formatados. Também é por conta disso que apagar dados sempre é infinitamente mais rápido do que gravá-los. Caso quisermos verdadeiramente formatar nosso disco no zero precisaremos de muito tempo para transformar cada bit de 1 para 0. Assim, os dados só são “apagados” definitivamente quando outros dados tomam o seu lugar. Ocorre mais ou menos como em casa, onde primeiro anunciamos: “precisamos tirar isso do quarto”; e somente quando compramos um novo objeto é realmente jogamos fora aquilo de que não precisávamos mais.

Espaço das ilusões

É comum utilizarmos espelhos para deixar “mais espaçosos” os ambientes. Isso só é possível por que a visão é uma das formas de se perceber o espaço. Iludindo a visão ampliamos o espaço, de modo que seus limites são ignorados por quem vê. Mas como ignorar os limites de um disco rígido? Esta noção de espaço está associada a um fenômeno muito interessante dos últimos anos na área de informática: a compactação de arquivos. Ora, quem nunca presenciou o milagre proporcionado pela compactação de um arquivo para o formato ZIP ou RAR?

 Os conteúdos armazenados possuem formas específicas de serem utilizados. O arquivo ODT, um formato de documento de texto, foi criado para que pudéssemos armazenar, transportar, ver e editar seu conteúdo em um editor de textos compatível, como o LibreOffice (BrOffice). Os dados nele, no entanto, podem ser reorganizados em outro formato de modo comprimido, para que permita apenas o armazenamento e transporte, mas conservando todas as informações necessárias para a reversão do processo. Fazemos isso pela mesma razão que dobramos a roupa para guardá-la em uma gaveta. Quando precisamos, é só desdobrar e vestir.

No entanto, esta não é a única forma de iludir os limites do disco rígido. Outra forma é comprimir o arquivo e liberar o que nele não interessa. Como no mundo visual, espaço também pode ser apenas a percepção que temos dele. Sabe aquela listra preta que tem entre uma cena e outra de um rolo de filme? Ninguém vê, mas ela está lá. Ora, não temos a capacidade de ver tudo e de ouvir tudo. Por isso filmes, fotos e vídeos são convertidos para formatos com menor número de dados, mas que mantém a melhor qualidade perceptível. Essa simplificação foi extremamente necessária para o avanço da internet. O MP3 revolucionou a nossa forma de consumo de produções musicais, pois retirou o que não interessava dos formatos de áudio mais puros e pesados, deixando apenas aquilo que o ouvido humano é capaz de escutar com qualidade. Ao mesmo tempo que se descobre novas formas de gerar mais espaço, por outro lado, a tecnologia também nos faz usar menos espaço com aquilo que já possuíamos. Esse pode ser até um bom exemplo de sustentabilidade: consumir menos espaço da natureza racionalizando o uso dos espaços que já possuímos.

Velocidade = Espaço / Tempo

Associar o espaço ao tempo é inevitável, mesmo em situações cotidianas como colocar a culpa na falta de espaço para a lentidão do computador. Sabemos que a velocidade é dada a partir da divisão do espaço pelo tempo, ou seja, a quantidade de tempo gasto para percorrer uma determinada distância. No entanto, se o espaço nos aparece por via de seu conteúdo, ou seja, das coisas que estão nele, e o que está nele são conjuntos de dados, para determinar a velocidade de uma ação de computador, precisamos descobrir quando tempo ele leva para acessá-los. Como numa estrada esburacada ou num caminho com muitas curvas e sinais, diversos fatores podem influenciar na velocidade de acesso aos dados. Mas uma coisa é certa, quanto mais informações mais consumo de tempo para encontrar aquilo que se procura.

Memória: espaço de troca

Um dos termos exaustivamente usados nesta era digital é o de memória. Pensa-se em memória, na maioria das vezes, como um baú que guarda informações. Por esta perspectiva, memória de computador é quase sempre entendida como o disco rígido, que armazena e disponibiliza todos os dados do usuário. No entanto, uma associação muito clara que se faz também hoje em dia é entre memória e velocidade. Isso vem do fato de que para o computador, não é só importante a capacidade de reter informações, mas também o tempo que ele leva para acessá-las. Uma das peças, conhecida como “memória RAM”, auxilia nesta função da seguinte forma: para utilizar as informações do disco rígido (memória permanente), os programas enviam as informações para a RAM (memória temporária), que mantém as informações disponíveis para os programas enquanto eles as utilizam. Assim que o programa é fechado e as informações salvas no disco, o pente as libera, recebendo outras em seu lugar. Algo parecido funciona conosco, temos os nomes de todas as pessoas guardados em nossa mente, porém, só buscamos estas informações, quase sempre, quando as vemos ou precisamos chamá-las.

Internet: espaço indefinido

De todos as noções de espaço tratadas aqui a mais intrigante é realmente a que se relaciona à internet. Além de total indefinição quanto às dimensões, este tipo de espaço também não revela nada sobre seu lugar. O desconhecimento nesta área também gera dúvidas e confusões nos usuários, que podem não entender como funciona o acesso dos dados na rede, a diferença entre o aqui e o lá, em casa e no mundo. Por um lado, a internet parece não ter espaço e nem lugar, mas em quase todos os cantos do mundo ela está. A internet é uma grande via por onde se encontram as pessoas e onde são lançados seus conteúdos informativos e interativos. Por esse prisma, a internet não é, ela acontece no momento em que uma informação é solicitada pelo usuário. Por outro lado existem gigantescas estruturas voltadas exclusivamente para o armazenamento de informações chamadas “datacenters”, onde empresas do mundo inteiro alugam o espaço para revender entre as outras. São imensos galpões climatizados e espalhados pelo mundo que mantém uma comunicação direta entre si através de uma quantidade inacabável de computadores. A internet alimenta um comércio de espaço infinito através deles.

No entanto o grande dilema da internet sempre foi sua capacidade de transferir a quantidade de dados que as pessoas e organizações possuem nesses computadores. Não adianta ter fotos, músicas e filmes, é necessário ter tudo isso de forma rápida e fácil. Por isso investe-se pesado nas tecnologias de cabeamento e transmissão da informação por todos os meios, inclusive pela rede elétrica. Outro problema é ter tantas coisas e as pessoas não conseguirem encontrar nada. Sites de busca, blogs, fóruns, redes sociais hoje democratizam o acesso à informação produzindo e relacionando informações que estão soltas na rede. Atualmente ela vem sendo a principal forma de nos libertarmos, inclusive, do espaço de nossos discos e pendrives, na medida em que podemos guardar qualquer tipo de conteúdo na internet, pela chamada computação em nuvem. As fronteiras do espaço estão sendo definitivamente rompidas e a internet tem papel fundamental nisso.

Espaço de escolhas

O espaço está sendo reinventado por esta nova era digital. Ele simboliza um grande desafio no avanços tecnológicos modernos. Terabytes já estão disponíveis em discos rígidos portáteis e muito mais vem por aí. Este disco parece que nunca vai ficar cheio, apesar de precisarmos defender o modo como temos acesso a ele, pois tudo sobre nós está nele até o dia em que nossa existência for apagada definitivamente.

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