O dilema de Nolan em Dunkirk

Nenhuma arte está isenta do mundo que a limita. Queria não ter lido o texto abaixo antes de assistir Dunkirk:

A televisão existe desde os anos 50 e a Netflix é televisão. Quem se importa com a Netflix? Não faz diferença para ninguém, não é nada mais que uma moda, uma tempestade em copo d´água. Qual é a definição de um filme? O que é um filme? Algo que dura duas horas? É um gênero específico?”, questinou Nolan. “O que sempre definiu um filme foi o fato de ser exibido nos cinemas. Nem mais, nem menos. O fato de a Netflix fazer filmes para televisão que competem no Oscar ou no Festival de Cannes significa apenas que o cinema está sendo utilizando como ferramenta promocional. Agora, se eu fosse o diretor de um festival, não aceitaria os filmes da Netflix porque eles não são filmes“. (correiodopovo.com.br)

Adoro a experiência cinematográfica produzida pela maioria dos filmes de Christopher Nolan, mas elas não podem ser tão epicamente óbvias. Quando o diretor de Dunkirk demonstra subestimar os outros meios de vivenciar seus filmes coloca um dilema maior do que espera para suas obras e para o próprio cinema. Essa arte, quando focada apenas na caixa escura, se vê encurralada por uma crise própria do mundo digital em que vivemos. Talvez o que digo possa ficar mais claro se pegamos esse mais recente filme de Nolan. Com uma espetacularização sonora característica da parceria com Hans Zimmer, e a fidelidade visual na excelente reconstrução do cenário e eventos de uma guerra de verdade o filme torna-se um produto enlatado para as salas mais modernas das grandes redes de cinema. Sem perceber, Nolan encarcerou o filme em uma contraditória situação: fora desse circuito ou para um público menos exigente a trajetória da obra será o esquecimento como “aquele filme de guerra das explosões e dos tiros”, ou seja, com “O Resgate do Soldado Ryan” sem a história.

Mas não é só pela história que o dilema de Nolan se aprofunda, mas principalmente pelos personagens. Mesmo com a defesa de que em guerra só existem corpos, uns vivos e outros mortos, não seria tão necessário emudecer completamente a obra. Sendo mais sincero Dunkirk poderia ter investido na ausência completa de diálogos, pois mesmo assim entenderíamos tudo naquele filme. Essa possibilidade poderia até ter barateado o estrelado elenco, onde grandes atores não tem nada para dizer. Tom Hardy que o diga pois só tem falas de piloto em situação de combate (talvez um pouco menos que em “A Origem”).

Teria sido o trailer incrível? Ou seria a saudade dos grandes filmes de guerra? Posso dizer que elevei o hype sim, mas eu realmente queria ter assistido esse filme sem ter ouvido falar dele ou de seu ator, mas o problema é que o cinema casual deixou de existir. Nele, grandes ideias podem se corromper apenas pelo fato de terem que mostrar o que não são. E o que Dunkirk não chega a ser é despretencioso. Ele foi feito como uma resposta à melhoria da qualidade visual das tevês, dos home theaters e da distribuição de filmes pela internet. Nolan está certo, seu filme não deve ir para a Netflix. Falta muitas das coisas que fidelizam as pessoas por duas horas na frente da tela (pequena ou grande) e sobra exibicionismo técnico de IMAX.

Em resposta a Nolan eu digo que o cinema não cria filmes, nem mesmo os melhora, pois assim seria muito fácil, para qualquer um e inclusive para ele. Os filmes são da relação arte-público e vão continuar sendo feitos para ela, onde ela puder se oferecer.