Como “13 Reasons Why” fala com a juventude?

CONTÉM SPOILERS

Eu assisto séries em doses homeopáticas de propósito, no entanto, com “13 Reasons Why” (ou “13 porquês”) optei por ver todos os episódios no menor tempo possível. Quando eu não estava assistindo eu sentia como se estivesse sendo cúmplice dos garotos da escola e estivesse deixando Hannah Baker se afastar. E como acontece com quase tudo ao meu redor a série trouxe inúmeras reflexões. Uma delas, porém, ultrapassou meus níveis comuns de inquietude: o que a série possui que a torna tão necessária e, ao mesmo tempo, tão ameaçadora para a nossa sociedade? Sufocando a parte óbvia desse tema escolhi discorrer sobre como esse produto cultural se apresenta singular nas discussões sobre juventude, mídia e educação.

O adolescente por ele mesmo

A série (ou livro, como queira) utiliza um mecanismo bem tradicional de identificação com seu público: uma mistura dos tipos textuais carta e diário. Essas formas são escolhidas, principalmente, quando se quer deixar o interlocutor em “primeira pessoa” na trama, ou seja, quase contracenando com os atores. E como pano de fundo está a escola e todas as formas de relação que deixam quase tudo mais familiar ainda, pois as personagens da trama são facilmente identificadas com as que temos na nossas lembranças da escola (ou vivências em tempo real caso você ainda esteja nela). E não é difícil pensar que somos mais um entre os estudantes, que estamos lá, fazendo o que eles fazem. Mas mesmo assim, ainda não é uma “quebra da quarta parede” por completo, pois Clay assume por nós o papel de “saco de pancadas” emocional. Porém, ainda ficamos muito ansiosos com o passo a passo das revelações, e também por ele não escutar todas as fitas de uma só vez.

Já existem infinitas produções que se destacam por usarem técnicas similares para realizar essa identificação com a juventude, tais como “Todo mundo odeia o Cris”, “Diário de um adolescente”, “Anos incríveis” e “Confissões de adolescente”. O que todas elas tem em comum é a tentativa de nos fazer ver o mundo a partir da ótica adolescente, nos colocar em seus redutos, na sua escola e em sua casa, mais precisamente, no seu quarto, mas “13 Reasons Why” tem algumas diferenças. Do mesmo modo como “How i met your mother” nos coloca sentados no “sofá”, ela torna tudo mais real quando parece que nós também recebemos um “pacote com as fitas”. Isso fica ainda mais forte quando acessamos mais uma das ótimas campanhas de marketing da Netflix, chamada “Não seja um porquê“. Esse endereçamento “interceptado” pelo espectador faz a série se comunicar em um nível diferente de identificação. Quando perguntam para o Clay se ele já escutou a fita dele, parece que estão perguntando para mim, se eu já escutei a minha.

Com essa estrutura, não se preocupe, a comunicação é direta e autêntica. Nesse sentido não foi tão complicado para a Netflix admitir que deveria por mais avisos, pois a série, episódio a episódio, só amplia o nível de identificação.

Os outros pelo olhar do adolescente

É importante saber que a série tem uma mensagem para cada um de nós, estejamos em quaisquer papeis, mas família, escola e círculos de amizades são as estruturas que abrigam todos os “porquês”. Mas a série, como um todo, garante o aprofundamento da angústia em cada camada dessa identificação e reserva dilemas importantes para os pais e para o papel institucional da escola. Eu até penso que recomendar para pais assistirem é menos problemático, mas não diria que alguém possa assistir a série sem se envolver emocionalmente. Encontrar o seu lugar nos episódios pode não ser uma questão de função que se deseja ocupar pois em algum momento você será surpreendido.

Se para os pais não parece tarefa fácil assistir, também não digo que um gestor escolar, professor ou conselheiro possa assistir sem reproduzir algumas das indagações e conflitos parentais. A perda total de controle sobre os adolescente tem consequências imprevisíveis tanto para os pais como para os atores escolares. A proximidade da escola com os jovens e a prudência em abordar determinados assuntos com eles é quase zero.

Não é possível, porém, identificar na série muitas perspectivas diferentes para as amizades. Elas são extremamente cativas do tema central da série. Eu posso dizer que “With A Little Help From My Friends” funciona exatamente ao contrário do papel que exerce em “Anos incríveis”. Existe apenas uma ponta de sincera cordialidade entre os adolescentes mas ela, na reta missão da trama, é fatalmente ceifada.

Mas o que há de especial em 13 Reasons Why?

O realismo da série na abordagem das relações e situações vividas pelos personagens já garantiria algum tipo de advertência. Sua dedicação ao tema do suicídio, que é tópico de discussão entre os personagens, mas também é fielmente representado como fato, colocam mais combustível na ardente polêmica. Mas “13 Reasons Why” se destaca por ser consumida diretamente na veia, sem necessidade filtros. A ambientação é fácil, os personagens são devotos do tema, o marketing da Netflix é preciso e a mídia sempre será ela mesma. A série é boa, mas não é para os desavisados. Mas se eu puder dar uma última recomendação antes do seu “play” é: assista ao lado de alguém com que possa ter uma boa e sincera conversa.

Para ampliar a compreensão:

Os 3G e os 13 porquês (Vídeo)

OS 3G E OS 13 PORQUÊS

OS 3G E OS 13 PORQUÊS
Neste vídeo, os filósofos e educadores George Gomes e Jean Pierre e a publicitária e educadora social Jeanne Gomes abordam a série Os 13 porquês da Netflix a partir de diversas referências culturais fazendo uma análise da repercussão negativa e positiva da série em relação à juventude.

Publicado por Filosofia imídia em Domingo, 7 de maio de 2017

Não seja um porquê (campanha promocional)
http://naosejaumporque.netflix.io/

With A Little Help From My Friends
https://www.vagalume.com.br/the-beatles/with-a-little-help-from-my-friends-traducao.html