Remix OS: da expectativa à experiência

Nesta semana começou a ser compartilhado o sistema que pode ser o primeiro grande sucesso do Android em desktops: o Remix OS 2.0. A adaptação feita pela chinesa Jide Technology já é utilizada no Remix Mini, um computador de baixo custo (em torno de R$ 600,00 no Mercado Livre) lançado em 2015 e faz parte de uma evolução natural dos esforços do grupo de ex-engenheiros da Google, criadores do tablet Star Jide Remix. Como prometido na CES 2016 a empresa disponibilizou o sistema gratuitamente no dia 12 de janeiro, que agora pode ser instalado em um pendrive ou HD portátil e usado nos computadores via USB.

A expectativa gerada pelo lançamento contagiou os especialistas no assunto e os usuários aventureiros que viram, principalmente, a possibilidade de reutilizar computadores mais antigos, devido ao trabalho de otimização do sistema para recursos mais modestos. Agora, poucos dias após seu lançamento, muitas dúvidas se espalharam sobre as possibilidades de instalação, uso e configuração do sistema, das quais selecionamos algumas para detalhar melhor.

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Nova fase para os desktops

A adaptação do sistema Android para computadores já é testada há algum tempo tendo como base projetos como Android-x86 e Chrome OS. O primeiro, de um grupo independente, disponibiliza atualizações do Android com instalação facilitada similar a dos sistemas Linux. O segundo, da Google, vem instalado em muitos dispositivos, mas principalmente no mini pc da empresa: Chromebook. Aproveitando o desenvolvimento do Android-x86 o Remix OS busca ser o que o que o Chrome OS não conseguiu: um sistema operacional para PC. Nesse aspecto, ele parece ser bem mais promissor que o sistema da Google. Mas por que esse tipo de adaptação é tão importante? Um dos pontos fortes desse desenvolvimento é a capacidade de integração do desktop com os demais dispositivos, principalmente com celulares, tevês e demais gadgets. Problemas como sincronia de tarefas, portabilidade dos arquivos e conectividade são alguns dos desafios que esse tipo de recurso visa solucionar. Um outro fato curioso é a melhoria geral de ferramentas como estas quando são usadas e testadas nas mais variadas márquinas e por muito mais usuários.

Sobre o sistema

A maioria dos usuários desconhece as possibilidades de instalação de sistemas operacionais (“dual boot”, “live cd”, “pendrive bootável”) e o Remix OS exige de nós um pouco dessas noções. Por isso ele nos impõem uma declaração de aceitação dos termos em que confirmamos que “somos desenvolvedores”. Até agora, ele foi disponibilizado em uma versão que roda a partir de um pendrive e seus requisitos são:

  • Pendrive com USB 3.0 (preferencialmente), armazenamento de pelo menos 8GB com velocidade de transferência de 20 Mb/s (também preferencialmente) e formatado em FAT32;
  • Computador com processador de 64 bits.

Essas são as recomendações que aparecem atualmente na página, onde a ausência da versão de 32 bits está sendo muito sentida. Alguns sites ainda publicam a informação de que ele suporta essa arquitetura e, outros, de que a Jide está considerando lançá-la posteriormente, mas não há download disponível para ela até o momento. Duas mudanças ocorreram desde o lançamento em 12 de janeiro: a possibilidade de download via torrent; e uma versão disponibilizada para EFI (eu ainda estou pesquisando o que ela significa). É possível que muitas novas opções venham a ser oferecidas na medida em que os desenvolvedores forem recebendo as contribuições dos usuários.

A instalação

Eu já testei três versões do Remix OS 2.0 e atualmente estou usando a 2ª oficial, de 14 de janeiro de 2016, em um computador Dell Vostro 1520, com 3 GB de memória e processador Intel Core 2 Duo, instalada em um HD Seagate através do aplicativo Unetbootin do Ubuntu. Da 1ª versão lançada no dia 12 para a 2ª do dia 14 não vi muita diferença.

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O download contempla a imagem (ISO) do sistema e um aplicativo executável do Windows para implantá-la em um pendrive “bootável”. Como uso uma distribuição Ubuntu/Linux precisei do Unetbootin para realizar essa tarefa, mas também executei a instalação com o Multisystem em outro HD, que ocorreu sem problemas. Para realizar a instalação siga os passos descritos no Pplware.

Alguns usuários estão relatando que o computador está reiniciando após a tela do boot, o que também aconteceu com um dos meus notebooks. Ainda não consegui a resposta definitiva sobre isso mas suponho que só será consertado com uma versão de 32 bits. Fora isso, os problemas estão mais relacionados aos requerimentos de hardware, ao boot via USB e a inabilidade dos usuários em realizar esse tipo de tarefa.

Remix OS em funcionamento

A primeira versão chegou à internet no início de janeiro de 2016, divulgada no Droidmen.com, site que mais publicou notícias sobre esse sistema até agora. Essa versão foi disponibilizada por um usuário chinês no Reddit e passou a ser compartilhada até que a oficial fosse lançada, em 12 de janeiro de 2016.

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A versão de testes já trazia vários aplicativos pré-instalados, entre eles, o Google Play, o pacote de escritório do Google e o Youtube. O que estava diretamente associado à ideia de “Posssibilidades Infinitas”, frase em destaque no site. Mas isso foi o que me levou ao primeiro susto quando terminei a instalação: a Jide havia retirado da versão de lançamento quase todos os aplicativos e, com eles, a própria loja do Google. Isso gerou uma sensação estranha de “o que eu vou fazer aqui?”. Então pensei: “é só inserir minha conta de usuário e… ”. Nada. Foi o que aconteceu, o botão “Adicionar conta” nas configurações fazia. Absolutamente nada. Então percebi que iria começar uma daquelas jornadas sem fim em busca de tutoriais. Encontrei no Liliputing.com: “Remix OS: Como instalar o Google Play”)

Coisas legais

Eu tive uma série de surpresas muito agradáveis ao descobrir o Remix OS. Ele está muito bem configurado para que você não sinta falta do touch dos celulares e tabletes. Como legado dos desktops, entre outras coisas, temos:

  • o botão direito, a rolagem e duplo clique do mouse;
  • as janelas redimensionáveis, arrastáveis e encerráveis;
  • a barra de tarefas, o menu de início;
  • a ethernet, o teclado com todas as funções, a impressora e o famosíssimo “Print Screen”

Já dos dispositivos móveis, entre muitas coisas, foram mantidos:

  • o botão de voltar em todos os aplicativos;
  • a barra de notificações interativa;
  • desinstalar aplicativos direto do menu de início;
  • compartilhar tudo o que se vê; e
  • e o controle fácil do uso de memória.

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Algumas dessas adaptações são expostas quase como troféus em no site da Jide, frutos do esforço de customização realizado no Android-x86. Quanto ao visual, a Jide impressionou a todos com a adaptação do Android para telas grandes, porém, o Remix OS vai muito além disso. Como a Jide diz ele também é um “Android reimaginado”. Foi necessária muita engenhosidade para realocar os recursos do celular de forma equilibrada com os que nós já conhecemos do desktop. E isso combinado a um visual elegante que é, inclusive, muito bem detalhado em sua página.

Os meus aplicativos que rodaram perfeitamente foram:

  • Google Chrome e Firefox;
  • Banco do Brasil;
  • Google Now;
  • Google Keep;
  • Google Drive;
  • Google Analytics;
  • Plex Media;
  • ES File Explorer;
  • Play Store;
  • Facebook;
  • Twitter;
  • Play Banca;
  • Snes9x EX+ (Super Nintendo);
  • Mupen64Plus (Nintendo 64);
  • Sixaxis Enabler (permite jogar com um controle de PS3 via cabo USB, sem necessidade de Root).

Coisas não legais

Instalar, configurar e usar o Remix OS 2.0 em um PC ainda é tarefa para curiosos (o bom é que existem muitos,  e eles só aumentam) e isso deve ser levado em consideração nesta etapa de publicização das experiências. Porém, é também nessa hora que devemos auxiliar um projeto como esse a crescer e beneficiar mais usuários.

Os principais aspectos negativos nesse lançamento foram a ausência da versão para arquiteturas de 32 bits e não poder instalar o sistema diretamente nos discos rígidos. Essas limitações impediram que muitos usuários pudessem experimentá-lo, ora pelas condições de hardware, ora pela inabilidade com esses procedimentos. Esse problema ainda acarretou a limitação de espaço em disco. Só podemos usar até 4GB compartilhados com o sistema, mesmo a partição do HD externo possuindo 10GB. Também não consegui migrar os aplicativos para outra partição. Em resposta a essas dificuldades é possível encontrar no fórum da XDA Developers um tutorial para instalar o Remix OS no HD interno e, ainda, rodá-lo como root.

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Outro fato intrigante foi chegar na hora de usar o sistema e ter que correr atrás do Google Services na internet. O próprio site da Jide indica o um tutorial externo para se realizar a tarefa. Esses, porém, foram os únicos problemas com o sistema em si com os quais esbarrei recorrentemente na internet. Os demais, que não devem ter destaque menor, referem-se aos aplicativos que não funcionaram bem ou nem funcionaram:

  • Youtube: resolução somente até 360p;
  • Google Fotos: na hora de visualizar as imagens em tela cheia o programa se encerra;
  • Flippboard – o conteúdo fica em uma tela preta e só aparece quando realizo as transições entre as postagens;
  • Pacote Office do Google – nenhum aplicativo abriu (Documentos, Planilhas e Slides).

Enfim, um bom começo

Bem, agora é preciso dizer que essa análise foi feita sobre um experiência muito recente e limitada frente a todos as possibilidades e recursos que um sistema como esses pode oferecer. Muito provavelmente nossa ansiedade irá mudar de direção quando algumas dessas dificuldades forem destravadas pela equipe de desenvolvimento. É importante ressaltar que esse é, sem dúvida, o uso mais proveitoso do Android fora dos celulares e tabletes, com impacto muito forte na usabilidade e produtividade dos desktops. Não é nenhuma coincidência ter apontado, muito recentemente, para a junção das plataformas Chrome OS e Android em função de um desenvolvimento mais consistente. Toda a euforia do lançamento deve, no entanto, se converter em vigilância pela melhoria da plataforma e na democratização de seu acesso a todos que querem ou precisam dela. Vida longa ao rebento!

Atualizando…

17-01-2016 – A compatibilidade com o hardware de meu computador é a causa de alguns dos problemas citados.